Ranking divulgado pelo Inep é liderado pelas escolas privadas
Enquanto o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) segue como uma das principais portas de entrada para o ensino superior no Brasil, os dados do desempenho das escolas em 2024 escancaram uma realidade conhecida, mas ainda pouco enfrentada: a ampla vantagem das escolas privadas, especialmente no Nordeste.
O Ceará, estado que já vinha se destacando por seus avanços educacionais, consolidou sua posição como referência no país. Das cinco escolas com melhor desempenho no Enem 2024, quatro estão localizadas em Fortaleza e são todas escolas privadas. O Colégio de Aplicação Farias Brito conquistou o primeiro lugar, com impressionantes 789,93 pontos de média entre os seus trinta alunos participantes do ENEM. Na sequência, também da capital cearense, aparece o Colégio Christus, com média de 762,45 pontos e 45 alunos inscritos na prova.
O único colégio fora do Ceará a figurar no Top 5 é o Classe A, de Campo Grande (MS), que garantiu a terceira colocação com 16 inscritos no Enem, que fizeram nota média de 761,81. As posições seguintes voltam a ser ocupadas por escolas particulares cearenses: o tradicional Colégio Ari de Sá Cavalcante e o Farias Brito Pré-vestibular Central, ambos com as notas médias de 760,09 e 759,67, respectivamente.
Apesar de São Paulo ser o maior e mais rico estado do país, sua escola mais bem posicionada só aparece na 12ª colocação, com nota média de 746,15, trata-se do Objetivo Colégio Integrado, com 43 alunos participantes do Enem. Essa diferença chama atenção não apenas pela questão geográfica, mas pelo modelo de ensino ofertado. Todas as escolas que lideram o ranking são particulares e possuem turmas reduzidas, estrutura de ponta e preparação intensa voltada para o Enem e vestibulares de alta concorrência.
O levantamento, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e sistematizado pela SAS Educação, reforça o abismo que separa os estudantes da rede pública da rede privada. Com acesso desigual a recursos pedagógicos, tecnologia, reforço escolar e professores com melhores formações, os alunos de escolas públicas raramente conseguem competir em pé de igualdade.
Ao mesmo tempo em que se celebra o desempenho das escolas privadas cearenses – reflexo de uma cultura local de valorização da educação e investimentos consistentes do setor privado –, o ranking reforça a urgência de políticas públicas que enfrentem a desigualdade de oportunidades no acesso à educação de qualidade.
Mais do que apenas um termômetro para medir o desempenho de escolas, o Enem acaba revelando onde estão os maiores desafios do Brasil na construção de uma sociedade mais justa e equitativa. A pergunta que fica é: até quando o acesso ao ensino superior de qualidade dependerá mais do CEP e da mensalidade escolar do que do talento e esforço dos estudantes?
Desigualdades que vão além da sala de aula
A disparidade entre alunos da rede pública e da rede privada no Enem não se resume à diferença de notas — ela é reflexo direto das condições em que cada grupo está inserido. Enquanto os estudantes de escolas particulares contam com turmas reduzidas, materiais atualizados, aulas de reforço, acesso a tecnologias educacionais, ambientes confortáveis e professores bem remunerados e com ótimas formações, a maioria dos alunos da rede pública enfrenta salas superlotadas, falta de estrutura, escassez de recursos didáticos e, em muitos casos, professores sobrecarregados e sem uma formação de qualidade.
Além disso, o tempo disponível para estudar fora da escola também é um fator determinante. Muitos jovens da escola pública trabalham ou assumem responsabilidades familiares, enquanto seus colegas da rede privada podem dedicar-se quase integralmente aos estudos, com apoio de cursos extras, simulados frequentes e acompanhamento familiar, psicológico e pedagógico.
Essa desigualdade estrutural acaba se refletindo diretamente no desempenho em exames como o Enem, tornando o acesso ao ensino superior, sobretudo às universidades públicas e mais concorridas, um desafio muito maior para quem vem da escola pública.
A ausência da família também pesa na aprendizagem
Outro fator muitas vezes invisível, mas de enorme peso na jornada escolar, é o acompanhamento familiar. Nas escolas particulares, é comum que os pais estejam presentes nas reuniões, monitorem tarefas, contratem reforços quando necessário e mantenham diálogo constante com professores e coordenadores. Já na rede pública, grande parte dos estudantes vive em contextos de vulnerabilidade social, em famílias que enfrentam dificuldades financeiras, emocionais ou mesmo de tempo para acompanhar a vida escolar dos filhos.
Muitos pais ou responsáveis desses alunos trabalham o dia inteiro, têm baixa escolaridade ou sequer conseguem compreender os conteúdos que os filhos estão aprendendo. Isso não é desinteresse — é realidade. A ausência de suporte em casa, somada a fatores como violência doméstica, insegurança alimentar, instabilidade emocional e até abandono, afeta diretamente o foco, a motivação e a autoestima dos estudantes.
Sem essa rede de apoio, o aluno da escola pública muitas vezes precisa lidar sozinho com desafios que vão muito além do conteúdo das provas. Ele precisa amadurecer cedo, cuidar de irmãos menores, trabalhar para ajudar em casa e, ainda assim, competir em pé de igualdade com estudantes que tiveram uma vida inteira de preparação. A desigualdade, portanto, não é apenas educacional — é estrutural.
Quando políticas assistencialistas substituem oportunidades reais
Embora seja inegável que, em certos momentos da história recente, políticas públicas com viés excessivamente assistencialista acabaram por manter parcelas da população em situação de dependência do Estado, em vez de oferecer ferramentas reais para a emancipação social e econômica.
Ao focar quase exclusivamente em programas de transferência de renda sem um plano sólido de educação de qualidade, capacitação profissional e inclusão produtiva, o governo corre o risco de gerar um ciclo de estagnação. Em vez de estimular o progresso individual e coletivo, cria-se uma relação de dependência que enfraquece o protagonismo das famílias mais vulneráveis.
Na prática, esse modelo desestimula a busca por resultados educacionais mais elevados. Se o básico está garantido por um benefício, sem metas claras de superação, muitos acabam sem incentivos para avançar. E isso não acontece por preguiça, mas pela ausência de políticas integradas que unam ajuda imediata com investimento em educação, emprego e empreendedorismo.
Mais grave ainda é quando o discurso de parte do governo assume um tom que romantiza a pobreza, tratando a vida em situação de vulnerabilidade como se fosse algo digno por si só, ignorando o sofrimento real das famílias que vivem sem acesso a serviços básicos. Ao mesmo tempo, a meritocracia é constantemente desvalorizada, como se o esforço individual, a disciplina e a busca por crescimento pessoal fossem privilégios ou características elitistas.
Esse tipo de narrativa gera uma consequência perigosa: normaliza a estagnação social. Em vez de estimular as pessoas a progredirem, estudar mais, buscar independência financeira e melhorar de vida, passa-se a ideia de que permanecer na base da pirâmide é aceitável — ou até mais “humano” do que competir em um sistema exigente.
O resultado é uma sociedade cada vez mais dividida. De um lado, escolas particulares altamente preparadas, com alunos que têm todas as ferramentas para alcançar sucesso acadêmico e profissional. Do outro, uma imensa parcela da população que se mantém dependente de programas sociais, sem acesso a uma educação transformadora, sem estímulo ao protagonismo e sem oportunidades reais de mobilidade social.
Romantizar a pobreza e atacar a meritocracia não corrige injustiças — apenas perpetua a desigualdade. Se o Brasil quer crescer, precisa investir na autonomia do seu povo — e isso passa, necessariamente, por uma educação pública forte, que forme cidadãos críticos, preparados e capazes de escolher seu próprio caminho, com liberdade, dignidade e perspectivas de um futuro mehor.
Ranking das 50 escolas com as melhores notas:
- Colégio de Aplicação Farias Brito – Fortaleza (CE)
- Colégio Christus – Pré-Universitário – Fortaleza (CE)
- Colégio Classe A – Campo Grande (MS)
- Colégio Ari de Sá Cavalcante – Unidade: Major Facundo – Fortaleza (CE)
- Colégio Farias Brito – Pré-Universitário – Fortaleza (CE)
- Colégio Alfa CEM Bilíngue – Unidade: Barra da Tijuca – Rio de Janeiro (RJ)
- Coleguium Ouro Preto Integral – Belo Horizonte (MG)
- Colégio Ari de Sá – Unidade: Mário Mamede – Fortaleza (CE)
- Instituto Educacional São José – Teresina (PI)
- Colégio Santo Antônio – Belo Horizonte (MG)
- Colégio Equipe – Belém (PA)
- Colégio Objetivo Integrado – São Paulo (SP)
- Colégio Ciências Aplicadas – Natal (RN)
- Colégio Etapa – Unidade: Vila Mariana – São Paulo (SP)
- Colégio Fibonacci – Ipatinga (MG)
- Instituto Dom Barreto – Teresina (PI)
- Colégio Master – Fortaleza (CE)
- Colégio Bernoulli – Belo Horizonte (MG)
- Colégio Ipiranga – Petrópolis (RJ)
- Colégio e Curso Pensi – Unidade: Icaraí – Niterói (RJ)
- Colégio Objetivo Integrado – Mogi das Cruzes (SP)
- Colégio e Curso Pensi – Unidade: Maracanã – Rio de Janeiro (RJ)
- Colégio Pódion – Brasília (DF)
- Colégio Pro Campus – Teresina (PI)
- Colégio de São Bento – Rio de Janeiro (RJ)
- Colégio Unigran – Unidade II – Dourados (MS)
- Sistema Elite de Ensino – Unidade: Madureira – Rio de Janeiro (RJ)
- Escola Madre Maria Villac – Teresina (PI)
- Colégio Bernoulli – Salvador (BA)
- Colégio de Aplicação da UFV – Viçosa (MG)
- Colégio Politécnico da UFSM – Santa Maria (RS) – Público
- Colégio Cognitivo – Recife (PE)
- Colégio Antares – Fortaleza (CE)
- Colégio Olimpo – Brasília (DF)
- Colégio Bionatus – Unidade: Vila Santerio – Campo Grande (MS)
- Colégio Santa Marcelina – Belo Horizonte (MG)
- Colégio Vértice – Unidade II – São Paulo (SP)
- Colégio Cognitivo – Recife (PE)
- Colégio Etapa – Valinhos (SP)
- Colégio Alfa CEM Bilíngue – Rio de Janeiro (RJ)
- Colégio Poliedro – Unidade: Centro – Campinas (SP)
- Colégio WR – Goiânia (GO)
- Colégio Lerote – Teresina (PI)
- Colégio Ari de Sá – Unidade: Aldeota – Fortaleza (CE)
- Colégio Regina Coeli – Veranópolis (RS)
- Colégio Lumière – Dourados (MS)
- Colégio Naval – Angra dos Reis (RJ)
- Colégio João Paulo I – Unidade: Sul – Porto Alegre (RS)
- Colégio Apogeu – Juiz de Fora (MG)
- Colégio Vital Brazil – São Paulo (SP)



